segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Não era pra eu estar aqui hoje. Já sentiu isso?
Eu já.
Hoje é diferente. Hoje era pra eu estar aqui, exatamente onde eu estou. E se eu não estivesse aqui talvez as coisas não fariam muito sentido. Não que hoje elas façam algum, mas o sentido vem de onde afinal? Eu decidi que o meu sentido vem daqui, desse sentimento que anda me perseguindo já faz um tempo. Até porque sentimento que não foi sentido não é sentimento, e esse aqui é sentido demais. Todo dia antes do trabalho, no trabalho, depois do trabalho, no banho, no livro, no filme, na música, antes de dormir e no outro dia a mesma coisa e no outro e no outro e no outro. Esse negócio de sentir a alma e o corpo andando juntos de novo me faz acreditar que viver é bom. Eu vou guardar isso pra um dia dizer pros meus filhos, ou pros meus vizinhos, caso eu não tenha filhos. Não é que eu esteja vendendo sorrisos. É que fazia tempo que a alegria não passava por aqui. Coisa leve, sabe? Não sei. Acho que é só inspiração. Acho que não. Ah, não sei mesmo. O sentido não faz muito sentido. Eu queria te dizer que talvez um dia eu te machuque, talvez um dia eu te faça chorar, mesmo que seja lágrima boa. Talvez não. Talvez um dia eu te ame muito muito muito e não me aguente de tanto amor. Talvez não. Mas o que foi sentido a gente não esquece, mesmo que pouco, mesmo que rápido ou mesmo que muito, mesmo que longo.
Coisa de gente que sente.
Da sala até a cozinha, da cozinha pro quarto, você é o meu sentido hoje.

domingo, 20 de setembro de 2009

mulheres, santas e desertoras - uma cena.

ela, por exemplo, era uma pessoa com um amor próprio exagerado.
nunca soube o que fazer com ele mas mantinha-o ali, bem perto.
medo, talvez.
não.
um cagaço federal!
e uma raiva sem tamanho, principalmente de si mesma.
foi o que ela me disse num desses dias que não se prende nada, que não se pensa nada.
por ali se cospe.
cheia de demônios, aquela menina.

o primeiro passo foi a perda da inocência. ainda não se sabe quando nem porque nem quem foi o responsável. só o que se sabia é que não tinha volta.
mas o que há de ruim nisso? quando ocorre a bofetada, logo depois vem a queimação do desespero e, sem dúvida, é ali que acontecem os prazeres mais intensos.

ela gostou da brincadeira.
um carinho, um beliscão.
um beijo, um empurrão.
um abraço, um soco.
um cafuné, uma escarrada.

a cada dia ela ia se afastando mais do naturalismo.
criava amizades em meio aos insultos. [era bonito de ver.]
e os amores... ela costumava agarrar os corações pela unha.
o fato é que amizade e amor eram conceitos que não existiam há muito tempo.
ela fazia papel de espelho.
o único no mundo.

até que encontrou uma companhia especial, uma velha que conheceu no metrô.
ela costumava falar que velhos eram mortos que continuaram andando.
mas aquela velha era diferente.
ela se esqueceu do nome porque era realmente difícil de decorar. você sabe, nome de velho.
mas o que a velha lhe escrevia, ela não conseguia esquecer. algumas palavras até lhe faziam mal e, ainda assim, ela não esquecia.
deitava a cabeça no travesseiro e chorava de raiva de ser quem era.
ela descobriu que queria ser aquela velha. escrever genialidades e morrer daqui uma ou duas semanas, no máximo.
era isso o que queria.

numa carta, a velha disse que a menina só tinha dois caminhos.
- você nunca poderá se integrar à babaquice reinante e nem desertar.
a você, só restam o suicídio ou a santidade.

a menina relutou por um tempo, mas sentiu que não haveria catarse.
não haveria redenção.

[vivi a minha vida inteira acreditando que deus tinha guardado algo de especial pra mim.
mas era mentira.
e das feias.]

por aí vai...

C. L.
F. D.
M. P.
M. B.

domingo, 13 de setembro de 2009

gigante

eu menti. me chamo amélia. mas poderiam me chamar angélica, ou maria, ou joaquina, ou antônia, ou até mesmo zoraide, o nome não importa. e se josé fosse o nome escolhido, será que ainda assim não importaria? de que adianta pensar nisso agora? já me peguei com essa pergunta atravessada inúmeras vezes, mas a resposta tem sido sempre a mesma (para saber como seria se me chamasse maria, só me chamando maria) e isso me irrita. não me servem de nada as divagações porque vivo presa num fato que é irrefutável: amélia. quando me chamam de amélia, meu corpo responde automaticamente, identifica o som que é ligado pelo meu cérebro instantaneamente à imagem: eu. o fato de me chamarem amélia me define. a idéia do definitivo me assusta. responder por amélia significa agir como tal.

hoje ela chorou por colo.
ela só queria encostar.

era amor grande demais
imenso
gigante
amor grande daquele
só podia caber dentro dela
e só ela aguentaria a dor
de ver grande amor daquele
gigante
imenso
virando pó.

ela continua pagando pra ver o invisível.

[meu médico me receitou champanhe gelado.
e gelo nas têmporas.]

ela gostaria de não ter se esquecido das cores e das coisas
ela não tinha pé, perdeu a mão e saiu meio sem nada.
saiu de casa procurando a solidão como quem procura alguém.
saiu cantando um trechinho de uma música sem melodia...
... um sucesso de um fracasso
um osso dando um passo
rumo ao amor
mais falso
do mundo. ...

tinha um sol inteiro pra ela.

como se puni quem não se arrepende? ela pensava.

- mesmo quando foge de casa, amélia volta pra arrumar a bagunça que deixou pra trás.


C. L.
A. C.
N. G.
H. H.
R. K.
um panfleto de rua.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

clara's ojos

veja bem meu bem
por esses dias eu só tenho palavras não inventadas
recortadas e coladas
meias palavras
que às vezes uma palavra inteira pode machucar
mais do que eu queria que machucasse
eu deixo nas entrelinhas
eu deixo no silêncio
na ausência
nas reticências
eu deixo.

não tá vendo? não tá ouvindo?

[não. então sim. então vai. lá. mas não. volta. aqui. não. vai mesmo. ai. eu te amo.]

eu sou aquela mulherzinha que se viciou no neosoro
que ficou rouca e quis mais gelo
que tá crescendo o cabelo
eu tô voando por ai e cada vez mais alto e mais alto e mais alto
e quando você me ver só um pontinho lá em cima
é a hora de despencar
e nadar num corpo novo
mergulhar
afundar
assassinar
eu não posso negar que é do meu jeito que eu gosto.

queria te deixar um obrigada e um oi
assim mesmo, o final antes de um começo
assim como eu gostaria que fosse
porque na verdade eu não queria que tivesse sido
mas como foi
um oi
pra recomeçar
devagarzinho.

tô indo prai
bater na sua porta
e dormir no corredor
só pra te acordar com um beijo de manhã
da manhã de amanhã.

logo agora a gente sabe

que o sentido das coisas é não ter sentido

[outertodos] e eu que

e você que

quando chegamos naquele pontovértice
onde nada é mais como era e nada como era é mais

eu volto retorno come back go go ia went was

[indovindo]

para o espaço que só existe no confuso
do universo da cabeça avessa amante confusa desejante vivente.

eu prefiro aprender com o que não está claro.
le sun.

C. L.
A. C.
F. F.

domingo, 23 de agosto de 2009

caosdequem?

eu não sei
porque é que eu fui nascer
eu não sei
porque é que eu vim de lá pra cá
eu só sei que agora eu vou ficar
s ó
p r a
d e s e s t a b i l i z a r
aaaaaaaaarrrrrrrr
arrrrrrr
rrrrrrrrrrrrr
abre a boca
meu dente não tem origem
toca a campanhia
agora arranha
arranha unha
arranha guela
toca a companhia
sou só coração
e eu me sinto assim, gostando até o fim

sabe o que é que a gente faz quando a gente não quer fazer nada?
olha, beija, pisca
silêncio enquanto penso
barulho enquanto durmo
a gente bebe bebe bebe bebe
e fica loco
e fala mal dos otro
eu vo é faze nada
nanananananananada

a gente liga pra alguém e pergunta como é que vai com quem..........................?

veio um
querendo me comer
veio dois
querendo me amar
mas o três veio logo me dizer:
ponha-se no seu lugar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

eu cheguei querendo só mamar
mas me tiraram pra dançar
eu dancei
depois que eu comecei
não conseguia mais parar
mais parar
mais
is
ma
ma
is
i
s
m
a
a
a
a
a
a
a
a
a
eu respondi: não vim pra responder!

hoje eu não vou fazer nada

eu já fui eu
agora eu sou você
equilibrando o habitat
e eu me sinto até, tudo o que vier

só quem viveu lá é que sabe

é como descobrir o novo de novo
sempre se sabe

o seu chão macio
o vento a brisa o ar
o arrepio

tá guardado a sete chaves

[na medida do impossível
veja tudo como é]

meio eu
meio fitz
meio ana
meio klimt
meio cañas
meio poli
meio espelho
meio são paulo
meio lobato
meio ella
meio corpo
meio alma
meio deus.

domingo, 9 de agosto de 2009

scat singing.

me dá só mais cinco minutos de você?
mesmo que eu te esqueça, me ame. mesmo que eu minta, se engane. é impossível, eu sei.
você não é daqui. eu não sou daqui.
brasília anda me corrompendo e eu ando adorando. e sobre aqueles outros?
foram tantas muitos muitos tantas tantas tantos que eu faço amor todo dia. me sinto dando prazer ao mundo. masoquismo de leve.
que mundo é esse que me corrompe e eu gosto?
é como se você nunca existisse. fiquei de quatro durei demais. queria tanto não quero mais. como o salário do fim do mês. o telefone é meu. a geladeira é sua. obrigado por ter se mandado.
ela é de delicadeza às oito e de ardência às duas. mas na verdade te quero à noite, se possível naquele horário da tremedeira na perna. você me lembra? poros abertos, boca salivando, olho de veia. pausa na boca macia e roxa. eu te lembro até dia dezoito. e caso eu te seduza, é só um pouco de atenção. minha fuga é a pé. ninguém pode saber. ah menina, se pudesse te levava nas costas. 90% cotton. tonta de tanto embalo num estalo desmaiou. haha. vou parando por aqui. porque na verdade ficaria até amanhã.
se a gente casasse não precisava nem mudar o nome.
caso eu me atreva, por favor, me beba. sobrou uma gotinha aqui. vem que meu sangue tá docinho. o gozo que gosto tem?
prova um dedinho.


C. L.
A. C.
F. R.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

improviso rouquidão.

aprendendo a amar a gente vai. amando. qualquer coisa que seja. uma duas três e a última e depois a única. aprendendo a amar a gente vai quebrando todos os ossos da cabeça e depois percebe que o amor não precisa de cabeça. o amor só precisa de cabeça! meu coração tá quebrado. não. meu coração tá derretendo. não. meu coração tá latejando. não. meu coração é um balde vazio. não. meu coração é um pedaço de carne. não. meu coração é meu. meu coração vagabundo. joe cocker cantando cry me a river me lembra daquele rio. aquele rio que eu chorei e que virou poça d’água. cor de vermelha. na boca na unha no sapato na pulseira. eu você e as escalas do piano. jazzísticas. uma taça vazia. passeando pela route sixty six. teu cabelo teu colo meu pé. um beijo. tenho medo de me tornar. o que se esconde sob o meu nome. embaixo do nome no subsolo do nome – sailormoon. olha o meio silêncio ali. a metade de tudo. eu chamo deus de tu porque deus é meu amigo. tá escutando? tu tu tu...deus? não, é hilda. pequeno museu sentimental. ter os fios de cabelo religados. os dedos religados. ela segura uma pomba. a outra voa. ela é o amor. tudo faz sentido na rússia. e eu canto. a gente improvisa. a tua voz a tua garganta o teu soluçar. tudo teu. eu amo a dureza do osso da minha cabeça. eu amo você. ai. pensamento sem razão. procurei um esconderijo. achei um abrigo. o nome com música. o nome com o meu. teto pra desabar. a gente pra construir. calma.
pra contar nos dedos.

C. L.
A. C.
F. R.